Pular para o conteúdo principal

Análise de Alien Isolation

O silêncio vale ouro

Antes das cenas de ação com fuzileiros espaciais, da colônia carcerária decadente e de uma ressurreição indigesta, a série “Alien” era um perfeito exemplo cinematográfico de uma boa história de terror espacial.
Há décadas, jogos licenciados da franquia são lançados no mercado, falhando miseravelmente em captar o espírito que nasceu com a saga. Bom, é aí que entra a ideia diferencial da desenvolvedora britânica The Creative Assembly: por que não voltar às raízes do primeiro filme e fazer em um game aquilo que deu tão certo em 1979?
Por isso, abandone tudo que você sabe sobre conflitos entre xenomorfos e outrasraças alienígenas de penteado afro ou mesmo o conforto de exterminar os cabeçudos usando armas gigantes: nós estamos aqui para falar de Alien: Isolation, uma angustiante experiência de survival horror.

O legado Ripley

Na trama, Amanda Ripley, filha da protagonista Ellen Ripley, há anos tenta descobrir o paradeiro de sua mãe — que está em sono criogênico no espaço e passará mais algumas décadas assim. Ao aproveitar uma oportunidade que poderia dar um final feliz à sua busca, ela acaba se envolvendo em um acidente que a prende na gigantesca estação espacial Sevastopol.
Depois disso, é questão de tempo até que ela descubra que o lugar caótico e semiabandonado está sendo aterrorizado por uma criatura assassina.
Alien: Isolation não é um game restrito apenas aos fãs que conhecem os filmes, mas são eles que, sem dúvida, mais aproveitarão a experiência. Nunca um jogo da franquia foi tão competente ao criar uma atmosfera que remetesse aos filmes e trouxesse tantos elementos familiares.

Fan service visual

Os androides bons e maus, os aliados traidores, a IA que compromete a segurança dos humanos, o Space Jockey... Está tudo lá. Sem mencionar o design deslumbrante de cenários, que reproduz com perfeição os mesmos conceitos visuais da nave Nostromo de “Alien: o Oitavo Passageiro” — muita tecnologia analógica e cheia de botões brilhantes que reflete o típico “futuro” imaginado em ficções científicas dos anos 70.
Isolation é rico em detalhes. É impressionante a quantidade de objetos presentes nos cenários e o cuidado que a desenvolvedora teve com a iluminação. Luzes baixas, luzes falhando, cabos em curto circuito, fogo.... E névoa. A saudosa névoa que funciona como charme tão característico dessa mitologia e que aparece tanto como vapor nas naves, quanto nos ninhos dos xenomorfos.
Mas se artisticamente o visual é praticamente impecável, em aspectos técnicos ele não sai tão ileso assim. Há frequentes problemas com colisão de elementos na tela, queda de quadros durante as cutscenes e NPCs com animações tão inexpressivas que parecem bonecos de ventríloquo. Não é nada que arruíne a beleza do game, mas é estranho que um projeto tão polido em conceitos tenha uma execução gráfica tão carente de lapidação.

Alien, no singular

Alien: Isolation — pelo menos em boa parte da campanha — é uma constante perseguição de gato e rato. E, exceto por desenhos animados, o que ratos fazem quando estão sendo caçados por seu predador? Exatamente, se escondem.
É preciso entender que Isolation é diferente em tudo em relação a Colonial Marines. Isolation é inspirado em “Alien, o Oitavo Passageiro”, de Ridley Scott, um terror espacial. Colonial Marines é derivado de “Aliens, O Resgate”, de James Cameron, um filme de ação.
Aqui, você não mata o alien. Exceto pelo lança-chamas, que pode afastar o monstro por alguns segundos, armas são inúteis contra ele. O núcleo deste jogo é a sobrevivência do mais fraco, por isso o silêncio e sua capacidade de ser furtivo são suas melhores chances de não ser morto pelo monstro invencível — proposta que, por algumas horas, é executada de forma brilhante.

No espaço, ninguém pode reclamar da sonoplastia

Alien: Isolation é muito competente ao construir um ambiente de medo e ansiedade nos primeiros estágios de sua trajetória. O enredo se desenvolve de forma propositalmente lenta, conduzindo com maestria os picos de tensão e medo a cada nova porta que se abre.
Em uma campanha em que o silêncio é vital para o gameplay, a composição sonora ganha muito mais destaque. Por sorte, Isolation conta com um dos melhores designs de som já executados em um video game.
Além de efeitos sonoros precisos, a tensão musical funciona de forma dinâmica, reproduzindo de forma orgânica alguns trechos remasterizados da trilha do filme original — algo que acontece de acordo com a sua proximidade em relação ao alien. Isso contribui dramaticamente para a criação da atmosfera de aflição que a história pede.

Não estava no roteiro

O xenomorfo é a coisa mais interessante e ao mesmo tempo a mais frustrante em Alien: Isolation. Interessante porque, além de vermos esteticamente a melhor versão do alienígena já reconstituída nos games, a performance da criatura é incrivelmente dinâmica e imprevisível.
A parte frustrante é que ela é imprevisível demais. Goste ou não, a inteligência artificial dos inimigos precisam oferecer o mínimo de padrão de comportamento em games baseados em furtividade. Se a conduta do NPC é puramente aleatória, todo o fator estratégia vai por água abaixo.
Após algumas horas, você passa a ser importunado incansavelmente pelo bicho. Missão após missão, ele simplesmente não vai embora! O que devia ser o grande trunfo do game acaba se tornando com o tempo seu componente mais irritante, pois a presença do alien deixa de ser usada apenas em momentos-chave e passa a ser um elemento constante.
Com isso, temos uma significativa quebra de intensidade na experiência e uma desconstrução daquela imersão incrível do início. Há algumas dezenas de sobreviventes espalhados na metrópole sideral e o monstro parece não desgrudar da sua cola por algum motivo pessoal, fazendo rondas em looping, como se tivesse perdido sua carteira na área onde você está e não se lembrasse de onde a colocou.

Arquitetura mal planejada

Para piorar, Isolation sofre com alguns problemas de level design. Se por um lado a Sevastopol é apresentada de forma detalhada e instigante, como uma Raptureespacial, algumas idas e vindas pedidas pelas missões não fazem sentido.
Os checkpoints manuais, por exemplo, não parecem seguir regra alguma quanto à distância que mantêm entre si. Alguns estão muito próximos, outros demoram dezenas de minutos para serem alcançados. E não se trata de progressão de dificuldade, tudo é muito aleatório, punindo o jogador um sem motivo aparente.
Alien: Isolation faz com que você vá de ponta a ponta da estação para fazer algumas tarefas, mas não traz a sensação de recompensa com isso. Nem em evolução para a personagem e nem em termos de narrativa.

Horas de filler

Após certa altura na campanha, há uma trégua na perseguição do alienígena, deixando você finalmente respirar um pouco, mas também dando lugar a um tipo de jogo que é totalmente diferente daquele que você viu nas primeiras 5 ou 6 horas.
Daí pra frente, são dezenas de horas indo e vindo no mapa com o pretexto de ativar terminais e realizar tarefas supostamente decisivas. É uma eterna promessa de uma conclusão que nunca chega, de resoluções que nunca resolvem.
São eventos que, apesar de contribuírem para a história, dissolvem toda a boa paranoia que fez o game funcionar,  em primeiro lugar. Pode parecer ridículo falar isso sobre um título single player, mas Isolation tem uma campanha que peca por ter sido esticada demais.
E em meio a tantos lançamentos que recebem modos multiplayer desnecessários, este é um jogo que teria um enorme potencial para um multiplayer. Imagine várias pessoas, indefesas, presas em um mapa com o xenomorfo, tentando vencer ao ser o último a morrer. Creative Assembly, nós pedimos: faça os DLCs valerem a pena.

Sessão Nostalgia

Um dos poucos momentos interessantes após essa segunda metade da história cheia de eventos filler é a “ida” ao planeta LV-426, onde acontece a “concepção” das criaturas dos dois primeiros filmes e do prequel “Prometheus”. Definitivamente, um dos estágios mais nostálgicos para os fãs e um dos pontos altos do game.
Aliás, falando em saudosismo, aqueles que fizeram a pré-compra do jogo tiveram acesso ao DLC Tripulação Descartável. Nesse modo extra, você volta à nave Nostromo e pode lidar com o alien controlando três personagens de “O Oitavo Passageiro”, incluindo a própria Ellen Ripley.
O modo é de curta duração e é basicamente uma versão old schooldo modo Sobrevivente, mas foi uma bela cortesia da desenvolvedora trazer para o game não apenas os rostos dos atores que trabalharam no filme, mas também reunir todos eles depois de tantos anos para dublar suas próprias vozes.
Por isso, fica nossa recomendação: se você tiver domínio da língua inglesa, mude o idioma de sua plataforma e jogue o game com a dublagem original. A versão brasileira, além de ter uma dublagem fraquíssima, apresenta problemas sérios de sincronia labial e de volume de som. Um erro técnico desastrado e indesculpável tornou a voz de Amanda Ripley quase inaudível durante todo o gameplay.

No fim das contas...

Alien: Isolation é um respeitável capítulo da mitologia dos xenomorfos. Um título que consegue brincar com as emoções do jogador por várias horas através de uma competente condução inicial da história e de uma coordenação de efeitos sonoros absolutamente fantástica. Possivelmente, uma das melhores adaptações já feitas de um filme de cinema para um video game e sem dúvida a melhor homenagem que a série Alien já ganhou em um jogo eletrônico.
O game sofre com algumas falhas técnicas, mas elas seriam perdoáveis se a campanha, que começa tão promissora, não se tornasse uma enrolação interminável e se depois de um tempo seu antagonista-chave não passasse a ser usado de forma banal.
Alien: Isolation é a meia jarra de um delicioso suco que teve meio litro de água adicionado para "render mais", estragando aquilo que já era quase perfeito. São excessos que acabam desconstruindo a atmosfera imersiva tão bem desenvolvida nas primeiras horas e que impedem que este seja o jogo definitivo da franquia Alien.

80Xbox One
Ótimo
"Alien: Isolation é a melhor homenagem que a série Alien já ganhou em um game, mas seus excessos estragam a imersão tão bem desenvolvida em seu início"



Fonte: http://www.baixakijogos.com.br/
Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

ZGB Start: Cadê o anúncio? Imagem inédita praticamente confirma novidade de Red Dead

Cadê o anúncio? Imagem inédita praticamente confirma novidade de Red Dead No último domingo, a Rockstar divulgou uma imagem que deixou muita gente imaginando que, em breve, teríamos algum anúncio relacionado à série Red Dead. E, pelo visto, quem apostava nisso pode começar uma contagem regressiva interna, pois uma nova pista surgiu na rede social. Como é possível ver na imagem que está na sequência, temos sete caubóis caminhando em um cenário com um pôr do Sol que seria visível em qualquer cenário de Velho Oeste. Sendo assim, resta aos fãs da série apenas aguardar um anúncio oficial da parte da Rockstar, e esse possivelmente será de um título inédito. Ver imagem no Twitter Rockstar Games

Análise do Mafia 3

Com glamour ameaçado, Mafia 3 se sustenta, mas esquece várias raízes Em primeiro lugar, e para dirimir eventuais dúvidas, preciso ser direto e reto: foi duro analisar Mafia 3. Não por causa do caráter técnico ou de outras ressalvas dissertadas nesta análise, mas sim porque sou ultrafã da franquia, da temática e do gênero, e sabemos que isso pode embaçar o julgamento. Sou fã de carteirinha de Mario Puzo, que assina “O Poderoso Chefão”, John Grisman, Joseph D. Stone (que concebeu o livro responsável por inspirar o filme “Donnie Brasco”) e outros autores do charmoso gênero mafioso, do qual, como bom ascendente italiano e degustador de massas, sou adepto. Eu estava sedento por Mafia 3. Mais do que estou por Final Fantasy XV, mais do que estive por Gears of War 4 e Uncharted 4, muito mais do que estou com os shooters da próxima safra,Titanfall 2Battlefield 1Call of Duty: Infinite Warfare e afins. Mafia 3 era, definitivamente, o jogo que eu mais aguardava este ano. Seis anos após o lançam…

ZGB Start: Rockstar mostra ápice do primor técnico em trailer de Red Dead Redemption 2 / Nintendo Switch: novo console modular pode ser jogado em qualquer lugar

Rockstar mostra ápice do primor técnico em trailer de Red Dead Redemption 2 O primeiro trailer de Red Dead Redemption 2 é real. Dois dias após prometer essa divulgação, a Rockstar publicou um material ainda escasso de informações, mas suficiente para mostrar, a todos nós, que a equipe de desenvolvimento dela faz o que bem quer com as gerações de consoles. O que vemos no vídeo adiante – rodando em tempo real, aparentemente – é um visual que explora os limites do PlayStation 4 e do Xbox One, seja em densidade de vegetação, em tamanho de mundo, em atmosfera spaghetti, em equalização entre luz e sombra, em fumaça, em partículas ou em água. Ou em o que você quiser. Por enquanto, esse primor técnico sobrepõe quaisquer outros elementos relacionados à história ou aos personagens. Ainda não se sabe, por exemplo, se o pistoleiro que monta no cavalo e sai em debandada junto a seis outros parceiros é John Marston em seus tempos áureos como um fora-da-lei. O primeiro Red Dead Redemption foi lançado e…